sexta-feira, 17 de março de 2017


precariedade

agora há pouco
mas houve dias em que havia mais
tempo de ouro

há muito
como nunca houvera antes
à altura dessa fartura
tempo de sobra

há muito pouco
como sabe toda gente
o tempo todo


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)




quinta-feira, 16 de março de 2017



angústia

livrar-se das escamas
para melhor nadar
tal ensino o peixe conquista
ao cardume lunar

livrar-se das escamas
para solar tão só
tal peixe o ensino conquista
às voltas de si

livrar-se das escamas
para chegar longe
tal conquista ensina esse peixe
a danação que salva


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)






quarta-feira, 15 de março de 2017


indomabilidade

amestre-se, melhor amigo do homem.
abane o rabo. finja-se de morto a transbordar
humanidades. role no chão, tão impulsivo.
a feracidade do pensamento? que tormento!
pela disponibilidade do efusivo,
adestre-se, exemplo de fidelidade.
deixe-se ensinar à felicidade
das crianças, mas aprenda a largar
o osso, não queira escondê-lo.
e não se esqueça: se mostrar
as garras, dá-lhe focinheira!
que isso de espumar de raiva é besteira.
se sentar bonitinho, que gracinha!
e se ficar de guarda? e se der a patinha?
ô espantalho do sensato,
nem precisa tanto espalhafato,
o nove é mesmo pra falar com a atendente!

dizem que sou grossa... ora, gente,
grossa é a lã do novelo...
aliás, cadê o meu novelo?



(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)

terça-feira, 14 de março de 2017


temor

tremem os dedos
confundem-se os olhos
falha a língua

e há tanto a dizer
dá um branco
faltam as palavras
confunde-se no todo

e há tempos quer dizer
mas ébrio do mar
como um barco a naufragar
bem que o tenta dizer

poeta ao mar
treme nem consegue falar
gagueja trava fica na mesma

burro a zurrar pelo olhar


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)


segunda-feira, 13 de março de 2017



último poema


contraditório por costume
o poeta meio que atravessa o poema
imanando espelhos quando fala
afinado ao dissonante que o diz

assuntado no verbo
dá um peteleco numa rima
e vai sentar-se numa ideia

desequilibrado como um palhaço
desfia o seu tecido decorado
desfila sua fantasia
a do homembomdebemcomavida

sem o riso do divertido
como se as piscadelas de sua arte
nem pedissem a cumplicidade do aplauso
nem resistissem direito ao aparte
de um desgosto enxerido

perplexificação:
travestida nessa reflexão
a gente tira a corda do pescoço


(Rodrigues da Silveira. In: MUDO, 2014)



sábado, 5 de março de 2016



na batucada

eis o poço em que me abrigo
de corpo inteiro na queda

não é preciso um sol sustenido
ao chumbo da saliva

o musgo zunindo-se paredes

escapando à escuridão
vem desse ventre
vem de baixo

corda feita de lama
imundando-me

a boca sangra
uns fonemas malabares
palavras sem língua

silva o translúcido
quase em harmonia
e ensurdecido


(rodrigues da silveira, 2015

sexta-feira, 4 de março de 2016


espanto 

raio de sol
o drama desse farol
fogo tramado

um vagalume cego

(rodrigues da silveira, 2015)







terça-feira, 1 de março de 2016


vagal

vago sobre a vaga
algo ou alga

demoro
imoto devoto
me rememoro

me devoro sumo
desmaio

arvoro o desrumo
como vário

(rodrigues da silveira, 2015)






segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016


sonho 

a face do visível na folha
escapa ao argumento
à vibração do olhar
vento branco

ao fundo outro branco
onde as palavras naufragam
indômitas informes transeuntes
aí a fantasia brinca
seus trancos mais necessários

espanto?

lápis às palavras
sem essa de pomba afogada
ou de sombra branca

faz da faísca
pensamento!

 (rodrigues da silveira, 2015)





sábado, 27 de fevereiro de 2016



proximidade

não sinto a borboleta não a sinto
na mão assentada em minha mão espalmada
o sentido do que não há

não solto a rã não a solto
falta ao sentido soltá-la
solto o ar ao saltá-la

não sigo o rio não o sigo
o tronco sobe o rio não o sobe naturalmente
a mente olha-se imóvel

não vejo o porto não o vejo
à margem do próximo bem aqui
aqui como ali

(rodrigues da silveira, 2015)











sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016



o saber do sal

a palavra manipulada como lama
os dedos são pinças
a desamparar os siris às seis da manhã
na lida às seis da manhã
o sol no levante

a palavra amparada por um lápis
a descamar a noite
a destroçar velas na areia despachada
sem a aprendizagem do riso
algum dolente riso

tão oceano o enfadonho

e o molusco lamejante
sua fala ofuscada como palavra aberta
quer-se gaivota assentada na brisa
mas essas máscaras puídas de lucidez
mas esse lodo de engodos
esse querer vestir-se de palavra
querer sentir-se em casa
querer-se

 (rodrigues da silveira, 2015)


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016



da brevidade do salto

o sono da chama
nada ferve

afeito ao desencanto
como abandono encarnado na lama

abre-se rosa o rochedo da febre
como afeito ao espanto

não reclama
não tem a verve

serve justamente ao manto
esse café na cama

some naquele canto
casebre a seco

sem pétalas como um rei
vai que é da lei

(rodrigues da silveira, 2015)



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016


a articulação do degredo

no fio de cabelo
o desconhecido

a descoberta
o ralo do banheiro

dantesco instante

flores desnudas
o saber tão ralo

pétalas caídas
o tão pouco saber

naquele banheiro
o calvo não rala

o fio é flor
metáfora do papalvo

(rodrigues da silveira, 2015)



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

      

partícula do adeus

as fotografias do menino olhando o homem
algo novo para quem menino
faz outro aquele homem

aquela criança sonhadora
observando suas desesperanças
à velocidade da luz

captadas as infâncias de mãe e filho
essas velhas conhecidas
modeladas aos joelhos

essa linguagem tende ao obscuro
na escuridão da miragem
ronda nossos mundos
no limite do talvez

queria pronunciar-se
distender-se

e lá longe
na geografia decorada do mapa
rodando suas esferas naquele labirinto subterrâneo
a fera escapa aos ímãs da luz

(rodrigues da silveira, 2015)