terça-feira, 16 de outubro de 2018

domingo, 14 de outubro de 2018

Sem dúvida!





Sem dúvida!

─ A morte é que nem parente distante, vai dali um descuido da gente e lá entra ela porta adentro, e logo com o nosso nome na ponta da foice. Daí não cabe recurso nem propina.

─ Não tenho palavras, dona Rúbia.

(Dona Rúbia! E isso é nome que se fale em público sem mais nem menos? Poderia ser Rosaura ou Rosana, só para não sair da casa do erre. Mas Rúbia? Tem certas gabolices...)

─ Não vim aqui para ficar à toa, seu Aurélio.

(Seu Aurélio! Como é que alguém põe nome de dicionário em uma criaturinha? Se, por ventura, o indivíduo já nascesse um convicto e juramentado lustrador de bigorna, ninguém haveria de contestar. Mas... Aurélio não chore, meu anjinho... Aurélio, não pise o encerado da sala com estes tênis sujos de barro, seu infeliz... Aurélio! Quando você vai crescer, seu imprestável. Nem vou me alongar mais, porque algumas coisas não cabem em quem carrega um nome desses pela vida afora. Gente...)

─ Seu Aurélio, o senhor me empresta quinhentos reais para eu pagar no começo do mês?

─ Dona Rúbia, a senhora há de convir comigo que... Do jeito que está o Brasil... Olhe bem, dona Rúbia... Com o perdão da verdade... Como a senhora é pessoa honesta, cumpridora dos seus deveres, sabedora das leis, respeitadora dos costumes... Vou confessar à senhora... Sei por mim que não deve estar sendo muito fácil... Nada, nada... Então! Eu lhe empresto o dinheiro, mas tenho uma condição...

(O espanto é só meu, ou o quê?)

─ Que a senhora só me apareça aqui para pagar o empréstimo sem um centavo a mais ou nada feito! Porque o dinheiro é meu e sei muito bem o quanto me custou juntá-lo. A senhora põe fé na sua palavra?

(Nem foi preciso furar a ponta do dedo para selar com sangue o contrato. Bastou saliva, que o pacto era mesmo de boca.)

─ Meu bom homem, o senhor não vai se arrepender. Afinal, quem empresta ao pobre...

─ Empresta a Deus. Eu sei, dona Rúbia, eu sei.


Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de outubro de 2018.



Livro de poemas.



sábado, 13 de outubro de 2018

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Boca de urna





Boca de urna

VAI ACABAR, VAI ACABAR / ESSA MANIA DE ROUBAR.
1992 – MASP. Tal palavra de ordem entra, escolhe um lugar para ficar e continua aí. Muito além dos meus ouvidos.
Não me lembrava. Mas algo mais pinta da memória.
Somos uma nação ou uma cloaca?
Com a pergunta, Otto Lara Resende encerrava crônica do dia 26 de agosto de 1992 publicada na Folha de São Paulo, cuja manchete deixava explícito que o povo brasileiro queria o impeachment do Collor.
Minha cara, por certo, era de quem tinha ido à manifestação trabalhar. Andava precisado de um frila, até do Notícias Populares. E tinha vindo a pé da estação Paraíso.
Tempos difíceis aqueles.
2018 – Largo da Batata. Os pedestres me encaram.
Juan Arias, no El País/Brasil, informa que 23 milhões dos eleitores não têm o ensino fundamental e 30 milhões correram do ensino médio. E, segundo o jornalista, quem mal consegue ler um livro por ano juntou-se a “milionários que pagam menos impostos que os pobres”. Daí que muitos deles estão entre os 46,03% ou 49.276.990 que, no primeiro turno, votaram no Bolsonaro.
Em 1992, num “Comunicado à Nação”, os ministros de Collor assumiram o compromisso de que a crise política encontraria “o seu desfecho natural na órbita da Constituição e das instituições democráticas”.
Em 2018, Jair Bolsonaro e seus futuros ministros querem nova constituição elaborada por “notáveis” e ameaçam com autogolpe caso reine a anarquia. Mas, o que é anarquia?
Em 1992, os jovens, de 16 a 25 anos, que foram às ruas, eles, hoje, estão na faixa de 42 a 51 anos.  E têm histórias para não esquecer. A indignação com o Mensalão de 2005, o desastre do governo Dilma, as manifestações de 2013...
Não esquecem. E não foram ouvidos.
Agora os filhos daqueles estudantes que pediam decência e vergonha na cara, os muitos que escorraçaram os partidos das ruas nas jornadas de cinco anos atrás, são eles que gritam nas urnas o nome daquele que diz entender o sentimento de quem nunca foi ouvido.
1992 – MASP: “1, 2, 3, 4, 5 mil / o bolso do meu pai não é o Banco do Brasil”.
2018 – INTERNET. Com carta branca para a polícia, o Jair adverte que é hora de acabar com os ativismos no Brasil.
Contudo, essa gritaria não torna surda a minha fome pela democracia. E tenho insaciável esta boca. Para alimentá-la regularmente, não tolero nem aceito que me impeçam de votar e de escolher em quem votar.

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, 11 de outubro de 2018.













Livro de poemas.



quarta-feira, 10 de outubro de 2018

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Asa da imbecilidade


Asa da imbecilidade

Já é o dia seguinte ao dia posterior às eleições, terça-feira, nove de outubro. Segue estabelecida a corrente de dias muito expressivos para nós, humanos, pessoas. E, para alegria dos chatos, sem que o escriba tivesse ciência da particularidade do fluxo do tempo. Há tanta coisa humana que não tenho a menor ideia do que seja.
Com os dias passando rápidos e definitivos, e como não sei nadar nem pratico mergulho, decidi parar de ficar boiando, ou me afogaria.
Quiçá por insanidade, tal qual curimbatá na piracema, rompi com a inércia de ir na correnteza e concentrei as forças para ir rio acima. Afinal, não aceitava o Brasil de tantas desigualdades e nunca fiz de conta que a realidade nada tinha que ver comigo. Não aceitava, e não aceito.
Tenho gastrite nervosa, por isso não vou ingerir lagartixas, cobras, moscas, tocos, pedras. Ainda mais de olhos fechados.
Sem mordidas na língua, e com acontecimentos em série a me abalroar, não surfo na rede. Foco-me nos fatos, naqueles que não me parecem gratuitos ou aleatórios.
Entro na corrente dos últimos dias.
O primeiro dia da Era Judaica? Calhou de ocorrer num sete de outubro, em 3761 a.C. Antes de Cristo...
No dia oito de outubro de 1998, José Saramago tornou-se o primeiro escritor da língua portuguesa a ir pegar em Estocolmo o seu Nobel, o de literatura, é claro.
Aos falantes do português, o que importa é que posso dizer o que penso nesta Língua Portuguesa que não é mais nenhum patinho feio no reino das letras.
Finalmente, chego ao presente nove de outubro.
Com a mente atenta, para não me afogar no mar de amores que muitos têm demonstrado ter por políticos. E haja ódio para dar vazão a tanto amor por fulano, por beltrano. E os sicranos?
Todavia, no Portal da Crônica Brasileira, li Coincidências, do Paulo Mendes Campos. Eis que fiquei vibrando com as aspas do primeiro parágrafo, "vento da asa da imbecilidade".
Ignorante que sou mas curioso, voltei a navegar na internet e localizei o fragmento destacado. Charles Baudelaire, o autor dessas palavras, começa o texto com um otimismo proativo, ao afirmar que “quanto mais se quer, melhor se quer”.
Então, de olhos bem abertos, encerro esta primeira crônica, registrando que o imbecil em mim, vivamente espantado com o mundo, pensa as mágoas cotidianas sem fingir que não sofro com a ventania muito humana dos instantes.

Rodrigues da Silveira

Praia Grande, 09 de outubro de 2018.




Livro de poemas





Livro de poemas



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

sábado, 6 de outubro de 2018


o presente do futuro


vividas as tantas perplexidades,
o monstro não tem culpa da mensagem que carrega.
agora, podemos nos comunicar?

(rodrigues da silveira, 2018)

quinta-feira, 4 de outubro de 2018


miss do universo


realidade, ainda que tardia?
a minha realidade poderia ser um copo d’água cheio,
quase a transbordar,
impossível tomá-lo nas mãos sem dispensar um dedinho.
cheio dessa água que me fui resgatar
do poço, o meu fosso, a minha fossa.
pródiga em emaranhamentos,
ramas que vão pelo subsolo, sobem pela cozinha,
a bailar aéreas e pela laje.
água arvorando-se como os meus dias na infância.

cinquenta anos depois, ainda infectada,
insalubre, danosa, água da minha lavra, água.
cinquenta anos depois, a infância ainda não chega,
fica-me pelo caminho, pedra que canta e dança,
fica-me a entrar pelas palavras, pelos pensamentos.
quer que eu a escale, palavra líquida expelida de mim;
dando-me essa ideia, posso escalá-la,
dançar com ela, subir ou descer quando queira, posso.
a infância pelo caminho dando-me a ideia:
os azulejos da casa dos meus avós dizem-me o fumo
do fogo de lenha; temperam-me a saudade
a leitoa, o ovo frito e o mingau de aveia.

estranho, alguém
que perdeu o chapéu sem nunca ter um na cabeça,
e a cabeça perfeita prum coco, ou palheta.
alguém, estranho
que tosse o amargo do charuto tomado ao pai.
um estrangeiro, esse alguém
à mercê do que não lembro, a infância à porta do quarto.

no fundo da fossa, do fosso, do poço, na água da poça:
espio o tão real do lá de fora. se me acenassem... esperem!
matarei em mim a criança que me querem morta.

(rodrigues da silveira, 2018)

quarta-feira, 3 de outubro de 2018


suspiro do inverno numa tarde de verão


quando escapa do vidro,
o sonho caminha entre as prateleiras,
sem deixar a impressão oleosa
nas caixas de sabão em pó.

irrompida fresta no meio do corredor,
na meridional do passo, o buraco é um poço.

com a plumagem dentro do prazo,
olha, grasna e goza, salta sem esforço e goza.

voltando pro circo, os palhaços,
entre latinhas de cerveja e garrafas de rum,
despercebidos do bafo, deixam aberta a passagem.

posso beber água na bica?
seu barato ainda é contar moedas?

o sonho fuma a ousadia, mais outra
da criança? diz a tradição da traição, do fundo
para diante, troca os fonemas, sua voz metálica do enigma
querendo dizer, esperando ouvir, um sim
do mesmo, seja sincero e sonoro, seja mesmo um sim.

a camiseta são os troncos caídos, as cinzas
da floresta dos xamãs orientados; ao antagônico,
fosse um lar. aos pretendentes do trono, o abatido do uníssono.

sementes da areia alimentam najas,
há braços hipnotizados por cigarros vulturinos.
desdenhada a lua, amante dos sonhos, frutifica o avesso.
coma-se, flor do inverno; oculte-se, breu do véu.

à porta, quem chega atravessado,
direto pro setor, toma do gosto a graxa,
samba os sapatos, batuca a caixa, teme um invisível
que canta o que vê. os pés lambidos.
o engraxate cego de atrações, faísca, enxerga rastros.

no meridiano das plumas, o pássaro do bizarro?
e dói um bocado tecer a noite. nenhum mendigo está só,
a disfarçar-se, assobio a arrepiar-se lume.
é adrenalina, é dopamina, é ninguém no tragado.
cadê a serotonina do desespero?
o coração da razão é o espelho do eco.

(rodrigues da silveira, 2017)

terça-feira, 2 de outubro de 2018


o conto da cabeça


o fantasma mais alto
falava mais baixo. tossia, e tossia,
mal disfarçando o nojo.
as crianças é que faziam da repartição um parquinho.

o fantasma mais trapalhão
pensava mais sério. gramava, gramava,
mal visualizando o vaso.
sem que se desse por direito, a petúnia crescera torta.

o fantasma menos fantasma
mais ficava fantasiando. queimava,
queimava, mal dimensionando o fogo.
o carbono torrado passa a impressão de um diamante.

dessa gente toda, o fantasma só fantasma,
sem queimar a pestana, fumava,
e fumava a chuva, nódoa que avançava:
adeus à morta, adeus ao corpo, adeus amante.

(rodrigues da silveira, 2018)

segunda-feira, 1 de outubro de 2018


isso é hora?


ridículo, soa ao meio-dia
o sino da meia-noite.

(rodrigues da silveira, 2017)

domingo, 30 de setembro de 2018


nina a ninar


a menina nina o menino nino
dorme dorme
vem o boi comer a grama
vai o boi passar o rio
dorme dorme
dorme que o sono vem
boi cansado também dorme
boi cansado nem para em pé
dorme dorme
vem o mano chamar o boi
vai o mano dobrar o arado
cansado dorme em pé
morre no mesmo lugar
dorme dorme
ê teimoso que não dorme
ê manhoso que não arria
dorme dorme
vem abraçar o menino
vem embalar o menino
ê mano do sono ê mão do sonho
nina a menina o menino nino

(rodrigues da silveira, 2017)

sábado, 29 de setembro de 2018


lasso e devasso


da última flor
arrancaram
um palhaço bêbado
um morto de palha
um monte de tralha
um paiol

juntaram?
os restos com as saúvas

à noite?
brincadeira de roda
a flor da fogueira
as cinzas desterradas
a língua viva

esses paspalhos
adubam as ossadas
com urina de serpente

querendo a nossa maçã? víbora!

(rodrigues da silveira, 2016)

sexta-feira, 28 de setembro de 2018


em carne vive


meu verso é um vespeiro,
onde me hospedo, aventureiro.

dele não saio impune, não recuso as ferroadas.
dou minha palavra, já que ninguém me defende de mim.
ataco-me como cão ferido, possuído pelo mel dos raivosos.

dança em mim o braseiro dos ferrões;
aperfeiçoado pelo ouro dos sentidos, danço.

se o verso começa de repente?
é pra nada dizer além do gasto, ter a sua pantomima.

esse poema diz tão pouco,
certo de ter no controle a doçura da sua procedência.
querendo em fogo brando o entendimento.

ai ferrão, jamais seja desperdiçado.

pesa-me o enxame, impondo-me outro poema?
na vez das rosas, pedras.

(rodrigues da silveira, 2016)