Armar, armando, ar
Puzzle imenso na mesa imensa.
Não dá para ver a cena inteira:
antes de mim
perdeu-se um monte de peças.
No quarto antigo
vasculhado de alto a baixo, encontro
no espelho desistido da porta
pó, reflexo falho, nada nas gavetas.
Como fechar o jogo incompleto, que mostra
parte de um homem montando um puzzle?
Armando Freitas Filho
terça-feira, 15 de julho de 2014
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
─ ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora ─ ah, lá fora! ─ rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
Mario Cesariny de Vasconcelos
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
mesmo
na idade
de virar
eu mesmo
ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo
Paulo Leminski
na idade
de virar
eu mesmo
ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo
Paulo Leminski
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Viagem futura
Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:
marinheiro do além, encontrarei nos portos
caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios
[mortos...
e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro
[mundo...
Mario Quintana
Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:
marinheiro do além, encontrarei nos portos
caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios
[mortos...
e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro
[mundo...
Mario Quintana
domingo, 21 de julho de 2013
Os nativistas
Embora seja o país
Privança de um rei distante,
Que dorme em cama de plumas,
Sob o leque adulador
De cortesãos, confiado
No ouro de nosso suor.
Embora Villegaignon,
Bom cavaleiro de Malta,
Corte a golilha, revogue
A lei da canga servil
E mostre à ovelha espantada
A estreiteza do redil.
Embora Nassau ensine
O curiboca a ser gente
E mude a sua tapera
Em palácio e faça o boi
Voar, convertendo em pássaro
Quem bicho rasteiro foi.
Embora careça pólvora,
Esquadra, falcões, mosquetes,
E andemos sempre descalços,
De arcabuz enferrujado,
Na guerrilha sem quartel
Contra inimigo equipado.
Embora em paga do sangue
Derramado se nos dêem
Três magros vinténs, que mal
Suprem a fome de quem,
Longo tempo jejuado,
As tripas falantes tem.
Embora, vencido o intruso,
Ao cabo de grã peleja,
Pena sem fim, heroísmo
Sem nome, a terra de novo
Volte ao antigo senhor,
Ficando logrado o povo.
Embora assim, combatemos
(Ararigbóia, Negreiros,
Caramuru) contra a insídia
De flamengo ou de francês.
Neste combate aprendemos.
Esperai, meu rei distante:
Há de chegar vossa vez.
José Paulo Paes
Embora seja o país
Privança de um rei distante,
Que dorme em cama de plumas,
Sob o leque adulador
De cortesãos, confiado
No ouro de nosso suor.
Embora Villegaignon,
Bom cavaleiro de Malta,
Corte a golilha, revogue
A lei da canga servil
E mostre à ovelha espantada
A estreiteza do redil.
Embora Nassau ensine
O curiboca a ser gente
E mude a sua tapera
Em palácio e faça o boi
Voar, convertendo em pássaro
Quem bicho rasteiro foi.
Embora careça pólvora,
Esquadra, falcões, mosquetes,
E andemos sempre descalços,
De arcabuz enferrujado,
Na guerrilha sem quartel
Contra inimigo equipado.
Embora em paga do sangue
Derramado se nos dêem
Três magros vinténs, que mal
Suprem a fome de quem,
Longo tempo jejuado,
As tripas falantes tem.
Embora, vencido o intruso,
Ao cabo de grã peleja,
Pena sem fim, heroísmo
Sem nome, a terra de novo
Volte ao antigo senhor,
Ficando logrado o povo.
Embora assim, combatemos
(Ararigbóia, Negreiros,
Caramuru) contra a insídia
De flamengo ou de francês.
Neste combate aprendemos.
Esperai, meu rei distante:
Há de chegar vossa vez.
José Paulo Paes
sábado, 23 de março de 2013
Circular
Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.
Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer
o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar
todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.
Paulo Henriques Britto
Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.
Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer
o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.
Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar
todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.
Paulo Henriques Britto
domingo, 27 de janeiro de 2013
Tem aqueles que
Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.
Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.
Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.
Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.
E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.
Às vezes os invejo
― por sorte isso passa.
WISLAWA SZYMBORSKA
tradução REGINA PRZYBYCIEN
fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1220200-mapa-e-outros-tres-poemas.shtml
Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.
Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.
Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.
Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.
E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.
Às vezes os invejo
― por sorte isso passa.
WISLAWA SZYMBORSKA
tradução REGINA PRZYBYCIEN
fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1220200-mapa-e-outros-tres-poemas.shtml
domingo, 18 de setembro de 2011
nada como a noite
escurece
e tudo se esclarece
Alice Ruiz S.
escurece
e tudo se esclarece
Alice Ruiz S.
sábado, 14 de maio de 2011
Uma fotografia
Acena ao mundo estás
só na turba,
na turba
transmudado -
e vives: aqui
te encontro,
a mão no teu sorriso
sobre o retrato
Age de Carvalho
só na turba,
na turba
transmudado -
e vives: aqui
te encontro,
a mão no teu sorriso
sobre o retrato
Age de Carvalho
sábado, 4 de dezembro de 2010
o morto e o vivo
Inútil pedir
perdão
dizer
que o traz
no coração
O morto não ouve
Ferreira Gullar
perdão
dizer
que o traz
no coração
O morto não ouve
Ferreira Gullar
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
POÉTICA
Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.
José Paulo Paes
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.
A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.
Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.
José Paulo Paes
terça-feira, 20 de outubro de 2009
O SONETO
Nas formas voluptuosas o soneto
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.
A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a sutil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.
E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto, nas formas caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E nas mais rara procissão augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas...
Cruz e Sousa
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.
A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a sutil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.
E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto, nas formas caprichosas.
As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E nas mais rara procissão augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas...
Cruz e Sousa
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
O SOL DA MEIA-NOITE
Do ovo negro gigante
Brotou um sol qualquer
Reduziu-nos nas costelas
Escancarou o céu
Em nosso peito órfão
Não se pôs
Tampouco despontou
Tudo em nós aurificou
Nada esverdeou
Em torno de nós
Em torno do ouro
No coração vivo
Tornou-se nossa lápide
Vasko Popa
Brotou um sol qualquer
Reduziu-nos nas costelas
Escancarou o céu
Em nosso peito órfão
Não se pôs
Tampouco despontou
Tudo em nós aurificou
Nada esverdeou
Em torno de nós
Em torno do ouro
No coração vivo
Tornou-se nossa lápide
Vasko Popa
Com fios de orvalho
aranhas tecem
a madrugada.
Manoel de Barros
aranhas tecem
a madrugada.
Manoel de Barros
domingo, 18 de outubro de 2009
TEORIA
Que todas
se humanizem,
ruas e cidades,
terras e nações;
que sejam como homens
de auroras e de nuvens
e amor no coração:
não desse amor
de álcool à chama;
não desse amor
às marés do instante,
à rosa impura
da violência e do ouro;
mas do amor que é trigo
nas planícies, nos celeiros,
e se perde em vão.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
se humanizem,
ruas e cidades,
terras e nações;
que sejam como homens
de auroras e de nuvens
e amor no coração:
não desse amor
de álcool à chama;
não desse amor
às marés do instante,
à rosa impura
da violência e do ouro;
mas do amor que é trigo
nas planícies, nos celeiros,
e se perde em vão.
Péricles Eugênio da Silva Ramos
LIVRO
Fecha o livro de imagens e miragens
criança adormecida
À transparência pálida das páginas
não resta nem a luz dos dias vivos
Ausente sob a capa já compacta
das águas claras perturbadas
oscila o mar
nas folhas separadas
Gastão Cruz
criança adormecida
À transparência pálida das páginas
não resta nem a luz dos dias vivos
Ausente sob a capa já compacta
das águas claras perturbadas
oscila o mar
nas folhas separadas
Gastão Cruz
sábado, 17 de outubro de 2009
NA POESIA
Na poesia
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim
aqui
como nas ruas
há caos e transparências
poucas saídas e uma só entrada
Dora Ribeiro
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim
aqui
como nas ruas
há caos e transparências
poucas saídas e uma só entrada
Dora Ribeiro
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
POESIA
Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.
Carlos Drummond de Andrade
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
NOVA POÉTICA
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada,
[e na primeira esquina passa um caminhão,
[salpica-lhe o paletó ou a calça
[de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento
[e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada,
[e na primeira esquina passa um caminhão,
[salpica-lhe o paletó ou a calça
[de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento
[e as amadas que envelheceram sem maldade.
Manuel Bandeira
terça-feira, 13 de outubro de 2009
ELOGIO DO PRÍNCIPE DA DINAMARCA
Coitado do Hamlet!
Assassinado,
Empurrado,
Para o sepulcro que é!
Oculto entre reposteiros,
Sem paixões,
Como os ladrões
Que lucram trinta dinheiros.
Coitado do que ele vê:
Crimes,
Espectros
Correctos,
Coitado do Hamlet!
Mário Cesariny de Vasconcelos
Assassinado,
Empurrado,
Para o sepulcro que é!
Oculto entre reposteiros,
Sem paixões,
Como os ladrões
Que lucram trinta dinheiros.
Coitado do que ele vê:
Crimes,
Espectros
Correctos,
Coitado do Hamlet!
Mário Cesariny de Vasconcelos
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