domingo, 21 de julho de 2013

Os nativistas

Embora  seja o país
Privança de um rei distante,
Que dorme em cama de plumas,
Sob o leque adulador
De cortesãos, confiado
No ouro de nosso suor.

Embora Villegaignon,
Bom cavaleiro de Malta,
Corte a golilha, revogue
A lei da canga servil
E mostre à ovelha espantada
A estreiteza do redil.

Embora Nassau ensine
O curiboca a ser gente
E mude a sua tapera
Em palácio e faça o boi
Voar, convertendo em pássaro
Quem bicho rasteiro foi.

Embora careça pólvora,
Esquadra, falcões, mosquetes,
E andemos sempre descalços,
De arcabuz enferrujado,
Na guerrilha sem quartel
Contra inimigo equipado.

Embora em paga do sangue
Derramado se nos dêem
Três magros vinténs, que mal
Suprem a fome de quem,
Longo tempo jejuado,
As tripas falantes tem.

Embora, vencido o intruso,
Ao cabo de grã peleja,
Pena sem fim, heroísmo
Sem nome, a terra de novo
Volte ao antigo senhor,
Ficando logrado o povo.

Embora assim, combatemos
(Ararigbóia, Negreiros,
Caramuru) contra a insídia
De flamengo ou de francês.
Neste combate aprendemos.
Esperai, meu rei distante:
Há de chegar vossa vez.


José Paulo Paes


sábado, 23 de março de 2013

Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.

Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer

o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.

Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar

todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.


Paulo Henriques Britto




domingo, 27 de janeiro de 2013

Tem aqueles que

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.

Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.

Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
por sorte isso passa.


WISLAWA SZYMBORSKA
tradução REGINA PRZYBYCIEN

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1220200-mapa-e-outros-tres-poemas.shtml

domingo, 18 de setembro de 2011

nada como a noite
escurece
e tudo se esclarece

Alice Ruiz S.

sábado, 14 de maio de 2011

Uma fotografia

Acena ao mundo estás
só na turba,
     na turba
                 transmudado -
e vives: aqui


te encontro,
a mão no teu sorriso
sobre o retrato


Age de Carvalho

sábado, 4 de dezembro de 2010

o morto e o vivo

Inútil pedir
perdão
           dizer
que o traz
no coração


O morto não ouve


Ferreira Gullar

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

POÉTICA

Não sei palavras dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

Com duas mãos fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.

A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão se dividido.

Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

José Paulo Paes

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O SONETO

Nas formas voluptuosas o soneto
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.

A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a sutil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.

E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo,
O Soneto, nas formas caprichosas.

As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E nas mais rara procissão augusta
Surge o Sonho das almas dolorosas...
 
Cruz e Sousa

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O SOL DA MEIA-NOITE

Do ovo negro gigante
Brotou um sol qualquer

Reduziu-nos nas costelas
Escancarou o céu
Em nosso peito órfão

Não se pôs
Tampouco despontou

Tudo em nós aurificou
Nada esverdeou
Em torno de nós
Em torno do ouro

No coração vivo
Tornou-se nossa lápide

Vasko Popa
Com fios de orvalho
aranhas tecem
a madrugada.

Manoel de Barros

domingo, 18 de outubro de 2009

TEORIA

Que todas
        se humanizem,
ruas e cidades,
terras e nações;
que sejam como homens
de auroras e de nuvens
e amor no coração:

não desse amor
de álcool à chama;
não desse amor
às marés do instante,
à rosa impura
da violência e do ouro;

mas do amor que é trigo
nas planícies, nos celeiros,

e se perde em vão.

Péricles Eugênio da Silva Ramos

LIVRO

Fecha o livro de imagens e miragens
criança adormecida
À transparência pálida das páginas
não resta nem a luz dos dias vivos

Ausente sob a capa já compacta
das águas claras perturbadas
oscila o mar
nas folhas separadas

Gastão Cruz

sábado, 17 de outubro de 2009

NA POESIA

Na poesia
a palavra só ressoa depois
primeiro fala para dentro
numa fidelidade própria das coisas sem começo
nem fim

aqui
como nas ruas
há caos e transparências
poucas saídas e uma só entrada

Dora Ribeiro

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

POESIA

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

NOVA POÉTICA

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada,
                            [e na primeira esquina passa um caminhão,
                            [salpica-lhe o paletó ou a calça
                            [de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento
                           [e as amadas que envelheceram sem maldade.

Manuel Bandeira

terça-feira, 13 de outubro de 2009

ELOGIO DO PRÍNCIPE DA DINAMARCA

Coitado do Hamlet!
Assassinado,
Empurrado,
Para o sepulcro que é!

Oculto entre reposteiros,
Sem paixões,
Como os ladrões
Que lucram trinta dinheiros.

Coitado do que ele vê:
Crimes,
Espectros
Correctos,

Coitado do Hamlet!

Mário Cesariny de Vasconcelos