terça-feira, 24 de novembro de 2015


falação


não falo por mim
quando falo pelo outro
afinal em boca fechada...

também não falo de mim
ao falar como o outro
afinal em casa de ferreiro...

sei que falam de mim
como falam de qualquer outro
afinal quem não tem cão...

tanto fala que fala
tanto diz que me diz
mas água mole em pedra dura...

(rodrigues da silveira, 2014)








outra suposta biografia


a certidão de nascimento do ódio
estabelecia que o ódio era para poucos
como para poucos eram os brinquedos do parquinho,
apesar daquela chuva além dos continentes

a certidão de batismo do ódio
datava o dia em que o ódio fez-se um dos poucos
porque ser escolhido era para poucos,
daí o olhar devoto de quem caminha ao vento

a certidão de maioridade do ódio
outorgava aos seus filhos um ódio ancestral
como só o ódio sabia cobrar com sangue as suas dívidas,
embora isso viesse como uma dádiva

a certidão de falecimento do ódio
nunca haveria de ser lavrada em cartório
e o ódio sabe adiar a própria morte,
porque nem só o ouro finca as suas veias na terra

(rodrigues da silveira, 2015)








rg


não recuse o círculo.
se faltam pontos aos is, as mãos dadas,
sobram crianças na sua infância.
e empobrecendo a metáfora,
tal fraternidade de saliva fútil de fotografia:
vai dizer o seu nome
ao identificar-se?

não rejeite a corrente.
o bolor, essas mãos dadas,
uniformiza em cinza o branco
da vizinhança. mesmo na chuva, nas ranhuras,
falta-lhes liberdade, portanto:
vai dizer onde mora
ao identificar-se?

não despreze a prudência.
é preciso saber dar a mão a quem não tem braços.

não se mova por impulso.
para outro circuito solar, outra família geométrica.
sem o mundano, e solidário, porém.

não denuncie a roda.
o olho não perdoa o sangue
das escoriações, pois não há igualdade
entre papelão e mármore, mesmo aos pedaços.

e você vai deixar de ser quem é
ao identificar-se.

(rodrigues da silveira, 2014)








o suspeito


como sempre
dentre os seus predicados
apresenta um cabelo afetado
─ essa raiz na hora errada

como sempre
dentre os seus defeitos
senta uma bunda tatuada
─ essa tribal no lugar errado

como sempre
dentre os seus talentos
ostenta uma estrela
─ essa destreza no chão impróprio

como sempre
dentre os seus direitos
sente o peito latejar
─ essa dor por mais um segundo

como sempre
na falta de nome
sua identidade é epidérmica,
naturalmente

uma vez que,
no mundo natural do poema,
o sujo faz sua limpeza
com a certeza do sempre

(rodrigues da silveira, 2014)








história de um velho


com exemplar resignação,
vestido da cabeça aos pés
com as devoções de cidadão,
aceita andar a pé, passando
pelo crediário do justo,
sorrindo, assim tão perdulário,
como quem nunca toma ônibus,
sabendo que não chegará
a tempo de rir da piada,
como se fosse obrigação.

e assim vestido de cidadão,
mantém a focinheira eletrônica
bem ajustada, concordando
de quatro em quatro anos, o alegre,
porque, segundo as suas contas,
ceder valor à prestação
faz da gente um homem direito,
herdeiro honrado da poeira
ocre do cafezal carpido
pelo avô, um cabeça quente,
que jamais engolira em seco
cada garfada fria do rancho.

fora dos diários, dos jornais,
das folhinhas cheias de luas,
segue nosso homem, e alforriado,
porque sonha ter, numa lápide,
gravado o nome, por inteiro.

(rodrigues da silveira, 2015)






segunda-feira, 28 de setembro de 2015


cabralino


não há como caber no cálculo
o calar-se?

não se há de fazer matemático
o materializar-se?

não saberá quanto pode em aspirina
o cantar do galo?

não dirá aonde ir ao cabo de si
no passo a seguir?

o que de lá para cá pensa
sabe-se a outra prensa

(rodrigues da silveira, 2006)


sábado, 26 de setembro de 2015


faxina


a algum é fácil
basta-se a abrir gavetas
reconhecer bugigangas
deitar fora essa roupas rotas

a mim me é difícil
bastar-me em fechar as mãos
recolher os cacos
deixar que me vistam trapos

como limpar o espírito
com a insipidez do amido?

(rodrigues da silveira, 2009)


sexta-feira, 25 de setembro de 2015





náufrago


o real
é silêncio a nos pensar
sobras em nós

a realidade
são palavras que sangram
ossos

é crueldade
sermos o irreal


((rodrigues da silveira, 2006)

terça-feira, 22 de setembro de 2015


entre nós


o menino aspirado
alma incomunicável?
arma automática

o menino fala demais
louco de pedra

o menino desarvorado
ainda é menino


(rodrigues da silveira, 2008)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

raio


retrato o ator
máscaras escancaradas
sem lábios-lápis
sem sombra nos olhos
sem cobras na cartola

o sino, a pino:
aquela que não nos ignora
apavora?


(rodrigues da silveira, 2006)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

sentido


retiro-me
sou madeira entalhada
e permanece a areia do amanhecer
olhares do aberto

reviro-me
sou o sal do salário
e assenta-se essa miragem de mim
página ao aberto


(rodrigues da silveira, 2009)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

o horror


deserto em mim
tão desperto


(rodrigues da silveira, 2005)

sábado, 29 de agosto de 2015

paul celan sepultado


quando não houvera fantasmas
fotografias tão caladas

onde havia pedras
flores murchas desse assombro

que houve por desassossego
água turva da memória

o que haveria a esse pouco
em quase nada

quem houvesse de?



(rodrigues da silveira, 2006)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

o cosmo do bruxo


dizem aquelas ruas
noites que sabem a azul
essa miopia
a alumiar-se por dentro?

pensam a rotina como ferida
insanidade tão precisa
por contumácia
aquelas pegadas calçadas?

e por controlar-se
o siso desse sorriso
reina imprevisto?

essas luas em pelica
escritas como luva
por saber saborear-se?


(rodrigues da silveira, 2006)








domingo, 23 de agosto de 2015

farsante


assim andamos
à sombra de nossas sombras
olho de peixe
o caminho arde

sola no solo?

assim chegaremos
a nós aos nos perdermos

o ópio do ócio?

estrada ou pesadelo
à parte: infarte!


(rodrigues da silveira, 2006)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

futuro outro


havia sobre a cama
um sentimento do mundo
me inoculava chamas
como estranhamento profundo
preto-e-branqueado despertador

no coração da razão desse ator
pena impróprio para consumo
escrevo-me terra flor e ciência
escarro-me sem resumo
como chuva de adolescências


(rodrigues da silveira, 2006)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

em tempo


me cobre o jornal
o cerco
o combustível da guerra
uma terra comestível
na lona

avental nariz olhos
um palhaço
e pronunciados

me recobre
texto à tona
como sargaço

e te descobrem
monociclo motriz
mortal


(rodrigues da silveira, 2006)

sábado, 1 de agosto de 2015

antracomante


flor, palavra brotada
em terra soletrada
canta atonal
o lamaçal onde lavra
a larva da contenda

aroma vicejante
aspirante ao espasmo
como oferenda
me destraço
em textura de cão
em ternura de balão
lendo-me DNA
NDA algum

e molda esse vintém
essa coda a mimguém


(rodrigues da silveira, 2005)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

na carteira


meu suor

diamentes dilapidados por lápis dissimulados
me detratam sal mínimo num jornal 3X4 multidolor

não é ao santo como dádiva desprezível
lástima envaidecida de um espantalho cômico
à guisa desse pudor dessa brisa sem vida

é mortalha que me traduz em mim


(rodrigues da silveira, 2006)