segunda-feira, 14 de setembro de 2015

raio


retrato o ator
máscaras escancaradas
sem lábios-lápis
sem sombra nos olhos
sem cobras na cartola

o sino, a pino:
aquela que não nos ignora
apavora?


(rodrigues da silveira, 2006)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

sentido


retiro-me
sou madeira entalhada
e permanece a areia do amanhecer
olhares do aberto

reviro-me
sou o sal do salário
e assenta-se essa miragem de mim
página ao aberto


(rodrigues da silveira, 2009)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

o horror


deserto em mim
tão desperto


(rodrigues da silveira, 2005)

sábado, 29 de agosto de 2015

paul celan sepultado


quando não houvera fantasmas
fotografias tão caladas

onde havia pedras
flores murchas desse assombro

que houve por desassossego
água turva da memória

o que haveria a esse pouco
em quase nada

quem houvesse de?



(rodrigues da silveira, 2006)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

o cosmo do bruxo


dizem aquelas ruas
noites que sabem a azul
essa miopia
a alumiar-se por dentro?

pensam a rotina como ferida
insanidade tão precisa
por contumácia
aquelas pegadas calçadas?

e por controlar-se
o siso desse sorriso
reina imprevisto?

essas luas em pelica
escritas como luva
por saber saborear-se?


(rodrigues da silveira, 2006)








domingo, 23 de agosto de 2015

farsante


assim andamos
à sombra de nossas sombras
olho de peixe
o caminho arde

sola no solo?

assim chegaremos
a nós aos nos perdermos

o ópio do ócio?

estrada ou pesadelo
à parte: infarte!


(rodrigues da silveira, 2006)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

futuro outro


havia sobre a cama
um sentimento do mundo
me inoculava chamas
como estranhamento profundo
preto-e-branqueado despertador

no coração da razão desse ator
pena impróprio para consumo
escrevo-me terra flor e ciência
escarro-me sem resumo
como chuva de adolescências


(rodrigues da silveira, 2006)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

em tempo


me cobre o jornal
o cerco
o combustível da guerra
uma terra comestível
na lona

avental nariz olhos
um palhaço
e pronunciados

me recobre
texto à tona
como sargaço

e te descobrem
monociclo motriz
mortal


(rodrigues da silveira, 2006)

sábado, 1 de agosto de 2015

antracomante


flor, palavra brotada
em terra soletrada
canta atonal
o lamaçal onde lavra
a larva da contenda

aroma vicejante
aspirante ao espasmo
como oferenda
me destraço
em textura de cão
em ternura de balão
lendo-me DNA
NDA algum

e molda esse vintém
essa coda a mimguém


(rodrigues da silveira, 2005)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

na carteira


meu suor

diamentes dilapidados por lápis dissimulados
me detratam sal mínimo num jornal 3X4 multidolor

não é ao santo como dádiva desprezível
lástima envaidecida de um espantalho cômico
à guisa desse pudor dessa brisa sem vida

é mortalha que me traduz em mim


(rodrigues da silveira, 2006)

sábado, 18 de julho de 2015


da natureza


espero a fidelíssima
como instante breve
um súbito levantar âncora
triste alegria?

espero essa derradeira canção
e cantarei a pleno pulmões
alegre tristeza?

espero a intransferível
seja breve canto incontornável
simplesmente

(rodrigues da silveira, 2006)



quinta-feira, 16 de julho de 2015

Produção da Imagem: Maria Teresa Teixeira Pinto

quarta-feira, 15 de julho de 2015

menir


seria ótimo, não fosse belo
o unicórnio o númeno
mas tal beleza exclui tantas coisas...

seria cômico, se fosse sublime
o despudor ou a sacanagem
mas essa mensagem... esse esplendor...

seria lindo, se houvesse lógica
nesse cadáver lírico
nesse riso afásico
mas a carne é...

seria próprio, acaso sonhasse
mesmo com tanto mar a tantalizar...
mesmo com lecanomantes como amantes...

seria pedir demais, acordar?


(rodrigues da silveira, 2004)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

pnigofobia



c



h



o
m


v
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l
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s
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r



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(rodrigues da silveira, 1985)

sábado, 4 de julho de 2015

preposições


eis-me branco
meu hábito irrevestido de espantos
página a ser escrita
mandando pro espaço
a ladainha de manequins
essas insignificâncias
sem acabamento

eis-me palidez
diante dessas implicâncias
sorvete bermuda do you wanna dance?
enquanto a neve enraizada
descabela-te

eis-me bocejo
fora convosco por vossas desenvolturas
pra blá-blá-blás virunduns
do tamanho de nossa incomunicabilidade

eis-me de fato
também fonema ligado a outro
até as reticências chegarem ao ponto
final de nosso papo:

crescei e multiplicai-vos
sem o espelho


(rodrigues da silveira, 2005)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

                 forma fixa


seja, sono, o sumo do meu soneto,
manco num pé, mapeado poema,
apeado do sentido, trono comum, pó
a destrocar-se nó, insurreto

olhar sem o ar usurpado à rima,
usura que esmurra, surra a finitude
da mente, quietude por impostura,
temente eco, silêncio que aproxima

francamente! miragem ampla à margem,
o infinito zomba, tomba, assunção
postada, assuntada nesta mensagem

ínfima e lógica, táctil substrato,
alegoria da alegria nessa algaravia,
paixão revelada neste chão, o abstrato


(rodrigues da silveira, 2005)
canção da ilha do tesouro


as pessoas querem um mapa
estão empenhadas a procurar
querem as pessoas um mapa

nós queremos aquele mapa
há quem demonstre maior empenho
há evidências desse desempenho
queremos nós aquele mapa

a gente quer o mapa
quer porque quer
mas a procura dá nessas pessoas
essas pessoas que só querem o mapa

a gente quer o mapa
e essa gente empenhada à caça tão evidente
a dar de cara com nossas retinas extenuadas
extenuadas pela clareza do sol a sol
e essa gente só quer o mapa

queremos também o que quer toda a gente
mas encontramos os macacos do nariz
também cheiramos no ar o sal de toda essa gente
e toda essa gente quer mais do que nós queremos
e toda essa gente sabe o que quer

se o mar acaba e começa na areia da praia
por que o mapa por uma concha 
escapa?

                                       (rodrigues da silveira, 2013)