sábado, 4 de julho de 2015

preposições


eis-me branco
meu hábito irrevestido de espantos
página a ser escrita
mandando pro espaço
a ladainha de manequins
essas insignificâncias
sem acabamento

eis-me palidez
diante dessas implicâncias
sorvete bermuda do you wanna dance?
enquanto a neve enraizada
descabela-te

eis-me bocejo
fora convosco por vossas desenvolturas
pra blá-blá-blás virunduns
do tamanho de nossa incomunicabilidade

eis-me de fato
também fonema ligado a outro
até as reticências chegarem ao ponto
final de nosso papo:

crescei e multiplicai-vos
sem o espelho


(rodrigues da silveira, 2005)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

                 forma fixa


seja, sono, o sumo do meu soneto,
manco num pé, mapeado poema,
apeado do sentido, trono comum, pó
a destrocar-se nó, insurreto

olhar sem o ar usurpado à rima,
usura que esmurra, surra a finitude
da mente, quietude por impostura,
temente eco, silêncio que aproxima

francamente! miragem ampla à margem,
o infinito zomba, tomba, assunção
postada, assuntada nesta mensagem

ínfima e lógica, táctil substrato,
alegoria da alegria nessa algaravia,
paixão revelada neste chão, o abstrato


(rodrigues da silveira, 2005)
canção da ilha do tesouro


as pessoas querem um mapa
estão empenhadas a procurar
querem as pessoas um mapa

nós queremos aquele mapa
há quem demonstre maior empenho
há evidências desse desempenho
queremos nós aquele mapa

a gente quer o mapa
quer porque quer
mas a procura dá nessas pessoas
essas pessoas que só querem o mapa

a gente quer o mapa
e essa gente empenhada à caça tão evidente
a dar de cara com nossas retinas extenuadas
extenuadas pela clareza do sol a sol
e essa gente só quer o mapa

queremos também o que quer toda a gente
mas encontramos os macacos do nariz
também cheiramos no ar o sal de toda essa gente
e toda essa gente quer mais do que nós queremos
e toda essa gente sabe o que quer

se o mar acaba e começa na areia da praia
por que o mapa por uma concha 
escapa?

                                       (rodrigues da silveira, 2013)



quarta-feira, 1 de julho de 2015

                o portal


aquela madrugada calou em mim
abruptamente rente, assim transfigurada
a imensidão moldou-me escuridão
serpente de cristal a pensar o depois
pondo-se em torno de meu sono
janela abissal para esses dois...

aquela madrugada calou em mim
o marfim que se revela mundo
ruído trapista distraído de si
labirinto indiferente do instinto
lendo-me vagamundo inconsequente
trapezista a perder-se nos instantes
nesses perfis nada errantes...

aquela madrugada quis me envolver...

(rodrigues da silveira, 2004)



sexta-feira, 19 de junho de 2015



o primeiro adeus é sempre o último
não importa que o bêbado grite por um abraço

adeus nenhum dura uma garrafa
pouco importa o beijo prolongado

se diz adeus, diz-se uma vez

do inverno ao verão tal plenitude
todo adeus é sempre único

1990



segunda-feira, 15 de junho de 2015



fim

só o sol
sob a lua
luz o sim

1990



(In: a rosa barroca, 2014)

sábado, 13 de junho de 2015




o ator

vê o grito preso naquele olhar
e reconhece o guizo

ouve num gesto o que o prende
e dissimula o azul

vive para dominar os nervos
entusiasticamente

e num previsível jogo de cena
suicida-se

1991



(In: a rosa barroca, 2014)

sexta-feira, 12 de junho de 2015




exílio

suspenso em minha síntese
surpreendo o silêncio
revestindo no visto
a egocêntrica ausência

1987


 (In: a rosa barroca, 2014)


álibi

o vazio
entalhando-se prata
ao assentar por reflexo
outro fio de espaço
a madeira
revelando-se exata
nos traços da cadeira
ao assuntar no disperso
uma sombra

1989


 (In: a rosa barroca, 2014)

terça-feira, 9 de junho de 2015



lógica

o querer
aprender a jogar
pra saber perder

o saber
aprender a perder
pra poder ganhar

o poder
aprender a ganhar
pra não querer jogar

1989



(In: a rosa barroca, 2014)

terça-feira, 2 de junho de 2015

sonâmbulo

visto os meus ossos
ainda lavados de sono
visto-os ao conforme de mim

é para melhor despachar tantas urgências
de ciências cotadas em tantos departamentos

depois não reconheço a dor que me firma
nada daquilo confirma o carimbo do indispensável

e seguindo ao meu modo o protocolo
pago os impostos ao recolhimento

despido do dia tão bem desempenhado
penso o corpo em que padeço
pendurando-me nos sonhos

(rodrigues da silveira, 2015)                                                                                                 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

LANÇAMENTO DO LIVRO 

a rosa barroca

Na última sexta-feira, dia 07, estive em Ibiúna, minha cidade natal, para lançar o livro A rosa barroca. 


Familiares

Esse tipo de ocasião permite que a família esteja reunida, assim, no restaurante Aroma da Roça, estiveram tios e tias, primos e primas, e, como andei sumido da cidade, havia muito assunto para ser colocado em dia...



Minha mãe, minha prima Cristina, Rodrigues da Silveira, Agenor e Maria Fernanda.
Com meu primo José Vicente.




















Amigos

Fiquei feliz com a presença dos meus amigos de infância, dos meus amigos de juventude e dos meus amigos da maturidade, ou seja, foi um encontro de gerações de ibiunenses, os nascidos em Ibiúna e os que escolheram a cidade para viver. Que alegria ver todo mundo outra vez!


A turma da Adega... Dona Ruth e seu esposo, Dr Silvestre, os proprietários da Adega, estão à direita.
Particularmente, saúdo o meu amigo Renatinho, que está de camisa branca na foto acima, pois ele colaborou de modo decisivo para o sucesso do evento, cuidando dos convites e dos detalhes. 

Valeu, Renatinho!



Professoras


Não posso deixar de agradecer às minhas professoras Stella e Maria das Dores pelo comparecimento, pois devo a elas mais do que a alfabetização, devo-lhes o meu gosto por ler, escrever e contar histórias.


Da esquerda para a direita: dona Dinca, dona Stella, Rodrigues da Silveira, dona Maria das Dores e dona Wilma.



Música

Marcos Xavier, muito obrigado por abrilhantar a noite com obras de J. S. Bach, de Villa-lobos e de outros compositores. Caríssimo, parabéns por sua dedicação ao estudo do violão e pela mão. 


Grande Xavier!



Aos proprietários do restaurante Aroma da Roça, especialmente, dou os parabéns pelo ambiente agradável e pela comida saborosa; e ressalto que o acolhimento foi nota 10. Muito obrigado pelo apoio para o lançamento do livro A rosa barroca.



Visão geral


No mais, um abraço a todos.

domingo, 17 de agosto de 2014

   Acabo de publicar o livro a rosa barroca, obra que reúne poemas escritos no período 1986-2005,

   A capa é:


   Neste primeiro post depois da publicação de material próprio, considero o poema metagênese como o mais adequado porque o verso a rosa de uma terra negra é uma referência explícita a Ibiúna, cidade onde nasci, e que é palavra tupi cujo significado é terra preta.
   Além disso, acrescento que o título, metagênese, diz respeito a alternância de gerações de um organismo, de uma geração sexuada e de outra assexuada. Assim, a metáfora da rosa diz respeito ao narrador do texto e à sua origem, mas as interpretações não me cabem, deixo-as ao leitor...

   Então, como um marco inicial no caminho do poeta, eis o poema:


metagênese


a rosa de uma terra negra
brota do sal abismada
traz a morte no aroma
nas pétalas, o pânico
e nas raízes, enigmas

a rosa de uma terra negra
sangra pedras
cicatriza vazios
empedernida ao acordar-me sol

revelado o segundo a menos
e eis o silêncio?

1989
   

PS - O livro pode ser adquirido na página do Clube de Autores:

https://www.clubedeautores.com.br/book/171290--A_rosa_barroca#.U_DhbUHjohk 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Armar, armando, ar

Puzzle imenso na mesa imensa.
Não dá para ver a cena inteira:
antes de mim
perdeu-se um monte de peças.
No quarto antigo
vasculhado de alto a baixo, encontro
no espelho desistido da porta
pó, reflexo falho, nada nas gavetas.
Como fechar o jogo incompleto, que mostra
parte de um homem montando um puzzle?

Armando Freitas Filho

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
─ ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora   ah, lá fora!  rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mario Cesariny de Vasconcelos


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

mesmo
na idade
de virar
eu mesmo

ainda
confundo
felicidade
com este
nervosismo

Paulo Leminski

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Viagem futura

Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:
marinheiro do além, encontrarei nos portos
caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios
                                                                       [mortos...
e eles me indagarão se é muito longe ainda o outro
                                                                 [mundo...


Mario Quintana

domingo, 21 de julho de 2013

Os nativistas

Embora  seja o país
Privança de um rei distante,
Que dorme em cama de plumas,
Sob o leque adulador
De cortesãos, confiado
No ouro de nosso suor.

Embora Villegaignon,
Bom cavaleiro de Malta,
Corte a golilha, revogue
A lei da canga servil
E mostre à ovelha espantada
A estreiteza do redil.

Embora Nassau ensine
O curiboca a ser gente
E mude a sua tapera
Em palácio e faça o boi
Voar, convertendo em pássaro
Quem bicho rasteiro foi.

Embora careça pólvora,
Esquadra, falcões, mosquetes,
E andemos sempre descalços,
De arcabuz enferrujado,
Na guerrilha sem quartel
Contra inimigo equipado.

Embora em paga do sangue
Derramado se nos dêem
Três magros vinténs, que mal
Suprem a fome de quem,
Longo tempo jejuado,
As tripas falantes tem.

Embora, vencido o intruso,
Ao cabo de grã peleja,
Pena sem fim, heroísmo
Sem nome, a terra de novo
Volte ao antigo senhor,
Ficando logrado o povo.

Embora assim, combatemos
(Ararigbóia, Negreiros,
Caramuru) contra a insídia
De flamengo ou de francês.
Neste combate aprendemos.
Esperai, meu rei distante:
Há de chegar vossa vez.


José Paulo Paes


sábado, 23 de março de 2013

Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar,
alguém está pensando a mesma coisa
que você estava prestes a dizer.
Pois é. Esta não é a primeira vez.

Originalidade não tem vez
neste mundo, nem tempo, nem lugar.
O que você fizer não muda coisa
alguma. Perda de tempo dizer

o que quer que você tenha a dizer.
Mesmo parecendo que desta vez
algo de importante vai ter lugar,
não caia nessa: é sempre a mesma coisa.

Sim. Tanto faz dizer coisa com coisa
ou simplesmente se contradizer.
Melhor calar-se para sempre, em vez
de ficar o tempo todo a alugar

todo mundo, sem sair do lugar,
dizendo sempre, sempre, a mesma coisa
que nunca foi necessário dizer.
Como faz este poema. Talvez.


Paulo Henriques Britto




domingo, 27 de janeiro de 2013

Tem aqueles que

Tem aqueles que cumprem a vida com mais eficácia.
Põem ordem em si mesmos e a seu redor.
Têm resposta certa e jeito para tudo.

Logo adivinham quem a quem, quem com quem,
com que objetivo, por onde.

Batem o carimbo nas verdades únicas,
atiram ao triturador fatos desnecessários,
e a pessoas desconhecidas
de antemão destinam fichários.

Pensam só o quanto vale a pena,
nem um instante mais,
pois depois desse instante espreita a dúvida.

E quando recebem dispensa da existência,
deixam o posto
pela porta indicada.

Às vezes os invejo
por sorte isso passa.


WISLAWA SZYMBORSKA
tradução REGINA PRZYBYCIEN

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1220200-mapa-e-outros-tres-poemas.shtml

domingo, 18 de setembro de 2011

nada como a noite
escurece
e tudo se esclarece

Alice Ruiz S.

sábado, 14 de maio de 2011

Uma fotografia

Acena ao mundo estás
só na turba,
     na turba
                 transmudado -
e vives: aqui


te encontro,
a mão no teu sorriso
sobre o retrato


Age de Carvalho